Menina-modelo

Texto sobre a imagem corporal na adolescência das meninas

Olhe uma revista feminina para mulheres adultas, passe seus olhos sobre  as propagandas, os editoriais de moda, bonito, não?

 Agora olhe novamente, com mais calma, pegue aquela propaganda de sandálias femininas, de roupas ou maquiagem, uma propaganda de reconstituição da pele, observe e responda: quantos anos tem a modelo? Vinte e cinco, dezesseis, ou talvez treze. Com alguma frequência você terá acertado na segunda ou terceira opção, a primeira opção seria reservada a uma revista para senhoras mais velhas como a “Claudia”, e olhe lá…

Qual aqueles jogos em que um olhar engana, em que dois rostos transformam-se em vaso, temos uma ilusão de ótica, onde pretendemos ver uma mulher na demonstração de seus melhores dotes, temos na realidade uma menina, “com tudo em cima”, como se diz.

Agora observe as meninas inegavelmente crianças, 4 à 10 anos, é muito diferente? Não, traseiros empinados, a sandália de salto traz a imagem de uma bailarina de rebolado, lábios bem vermelhos, blusas com transparências, temos a caricatura de uma mulher provocante. Ora direis, talvez apenas a versão comercial daquela menina das imagens clássicas, que arrastava pela casa os saltos da mãe, sumida dentro de grandes vestidos, toda borrada de batom. Pode ser, mas talvez seja necessário pensar que a diferença entre a roupa própria e a emprestada não seja sem efeito. Assim como não deve ser sem efeito oferecer às mulheres mais velhas o empréstimo da imagem mais jovem que elas deveriam ter. Em linhas gerais diríamos que a menina borrada de batom está brincando com o ideal de beleza, a outra precisa carregá-lo, como aquela mentira que, de tanto repeti-la acaba-se por acreditar nela.

Fascínio e temor, são os efeitos produzidos por esses jogos de imagens, fascínio de ver a menina em sua performance de equívocos, típicamente feminina, temor quando constatamos que se trata de uma criança: sedução, assédio e outras monstruosidades rondam a fantasia.

 Anterior à adolescente-mulher está a menina-adolescente, dando a impressão de que as crianças estão sempre se fantasiando da próxima etapa, o que não é estranho à infância, pois brinca-se sempre de crescer, apenas o que era brincadeira agora é institucionalizado.

Se crescer é a tarefa motor da infância, talvez não seja indiferente o efeito de  uma brincadeira ser tomada de assalto por um ideal social. Ora direis, sempre se brinca com os ideais socias. Em verdade, cow-boys, soldados, super-heróis, cientistas malucos, princesas, professoras e outros clássicos encarnam os ideais de coragem, sabedoria e beleza de seu tempo e as crianças sempre receberam instrumentos (brinquedos) da sociedade para lidar com estas expectativas em suas vidas. Mas será a mesma coisa quando isso ocorre fora da brincadeira?

 A menina vestida com roupas que evocam um fetiche sexual, a jovem de 15 anos que carrega a tarefa de parecer uma mulher com o dobro da sua idade que usou uma loção firmadora da pele, será que estão brincando? Obviamente a resposta será não. Elas são “modelos”, e é nesta palavra que temos que deter-nos para pensar um pouco na tarefa específica de crescer mulher hoje.

Em qualquer enquete entre jovenzinhas sobre o que desejam para seu futuro, muitas certamente responderão: modelo. Como modelo, utilizamos uma imagem congelada de um determinado momento da vida feminina, como se fosse posível deter-se num espaço de perfeição. Em verdade é um momento inexistente, pois é fora de qualquer temporalidade possível, funcionando como padrão, como ideal.

Está certo, ideais não são para ser tocados, eles estão sempre além. Porém, embora o ideal escape como a cenoura que movimenta o burro, nada nos impede de tentar dissecá-lo. Há algumas inflexões particulares deste momento-ideal que se erige como modelo.

As palavras chaves seriam bela, jovem e sensual. Fresca como uma rosa, sem marcas de sofrimento, fogosa e sábia como uma mulher feita. O resultado é um conjunto disjunto, pleno de contradições, pois quem consegue ser menina e mulher ao mesmo tempo, jovem e velha, inocente e ardilosa, ingênua e esperta, e assim por diante. A unidade possível é a constituição de um parâmetro, um modelo como se diz, um ideal.

Juventude, beleza e sensualidade tornaram-se atributos obrigatórios entre as mulheres, o que outrora era um dom , hoje é uma prerrogativa necessária. Havia as bonitas e as feias,  mal distribuido como são os dons de Deus ou da genética, a beleza não escolhia lugar, a admiração lhe era devida como o é a uma bela paisagem. Freud falava no narcisismo dos felinos e das mulheres belas, ambos visivelmente sorteados pela natureza.

Se no entanto pensarmos na história das mulheres encontraremos que sempre houve modelos, no sentido de pautas, rígidos parâmetros do que devia uma mulher ir sendo e fazendo ao longo da vida. Porém talvez haja uma diferença entre um papel e um ideal, que nos leve à compreensão da importância incrível que a figura destas modelos tem tido em nossa cultura.

O modelo como imaginarização possível de um ideal, economiza e aplaca o dilema sobre o que é preciso tornar-se. Frente às inúmeras possibilidades de escolha de destino, as mulheres parecem às vezes ficar confusas, mas seria falso deixar os homens de fora deste jogo de múltiplas escolhas. Por isso se não sabemos bem o que ser, teríamos o alívio de saber o que parecer…

No território do feminino, modelos tem encabeçado os lugares de relevância social. Estes seres de idade indefinida, sexualidade andróide, de uma realidade quase virtual, dispõe-se a carregar o fardo de ser um ideal, mesmo sabendo não sê-lo.

Cindy Crawford, que já foi um desses ícones de mulher, afirmou uma vez, que quando acordava levava umas três horas para ficar com cara de Cindy Crawford. Se ela de fato afirmou isso nunca saberemos, mas é bene trovato e vem a calhar para o que nos ocupamos. Um ideal é o que ninguém é, alguém pode representá-lo, mas ao preço de, como disse a modelo, saber tratar-se de uma miragem.

Um exemplo: uma jovem na flor da adolescência, linda, véspera de seu aniversário de 18 anos, pergunto-lhe o que pediu de presente. “Meus silicones” responde convicta. Seu jovem corpo, não tinha o volume dos seios na medida necessária, precisava se adequar ao modelo…

Os parâmetros de beleza sempre foram incômodos, os silicones, lipoaspirações, põe e tiram pedaços de corpo infinitamente e reatam a tortura do espartilho, mas talvez eles estejam aí para lembrar que um ideal dá forma, constitui, molda. Uma miss brasileira, conhecida pelas suas dezenove plásticas afirmou: ”A mulher nasce bela, mas não perfeita. Só a cirugia estética conduz à perfeição”. Poderiamos dizer que o modelo cinzela o corpo da mulher, como o escultor faz com sua estátua…

Falar do processo de crescer, tornar-se mulher,  envolve-nos com a sinuosa teorização da identificação. Tornar-se alguém passa por algumas histórias de amor. Passa por ser amado, primeira possibilidade de candidatar-se a algum estatuto ôntico, sendo a identificação a forma mais rudimentar de vincular-se com os pais. Ou seja, ser amado, para ser alguma coisa, depende de, num primeiro momento, fazer-se uno com aquele de quem esperamos algum reconhecimento.

A primeira forma de identificação, mais especificamente a primeira relação com a figura paterna de que Freud fala no texto “Psicologia das Massas”, é a de uma incorporação. Ser e ter neste caso se misturam. Pensando em termos analíticos, para ser é preciso ter tido, ou melhor ser tido, fusionar com o objeto de amor, incorporar suas características, sê-lo antes de sabê-lo.

Por outro lado, é preciso ter perdido este objeto para começar a ser, relacionando-nos com sua representação, pois destas representações é que é feito nosso psiquismo egóico (o que acreditamos ser). Freud deixa bem claro, já em 1905 (1), que para situar a mãe como objeto de amor é preciso ter perdido o seio como parte de sí mesmo.             

Como forma de equacionar conceitualmente esta encruzilhada onde se encontram o sujeito e seus primeiros amores (mãe, pai ou substituto), utilizamos os conceitos de eu-ideal e ideal do eu. Estas categorias, a grosso modo, representariam o caráter originário (eu-ideal), onde somos engendrados pelo amor e reconhecimento do outro, e as identificações em que o eu se reconhece (ideal do eu), onde guardamos a coleção particular do que precisamos ser para ter esse amor e reconhecimento.

O eu-ideal teria tintas mais imaginárias, enquanto o ideal do eu matizes mais simbólicas. Tanto não existe separação entre estes registros quanto são indissociáveis estas duas instâncias. O tema da identificação cataliza os lugares de sujeito e objeto numa trama amorosa, num precipitado do qual nascemos todos.

Tentando pensar com o auxílio desta trama teórica, poderíamos dizer que a modelo é objeto, mas que fazemo-nos sujeitos através dessa admiração, num processo de identificação com o que ela encarna. Por isso os efeitos da admiração a essas mulheres ideais, que como vimos, são ilusões até para as moças que carregam a função de sê-lo, são os de construção de uma personalidade, de um vir a ser.

O ideal da modelo está associado a um corpo construido, por abstinências alimentares, disciplina nos exercícios, na administração do repouso, muitas vezes plásticas. Trata-se de um ser humano que investe trabalho em se aproximar a este ideal. Frequentemente, vem junto a história da menina que na escola era mal vista, por ser muito alta, muito magra ou muito tímida, um dia é descoberta por um “olheiro” de agência de modelos.

De patinho feio a cisne, de borralheira a princesa, frente a este novo olhar, diferente do que lhe reservava sua comunidade de origem, a jovem viaja para o mundo mágico dos desfiles e lá torna-se outra, a encarnação da beleza. Mesmo quando se trata da revelação de uma beleza que já existia no sujeito, ela se revela noutro mundo, longe da banalidade cotidiana, o mundo virtual, globalizado da moda.

Estas novas Cinderelas são muito diferentes da dos contos de fadas, a borralheira era apenas uma bela injustiçada, as modelos são jovens candidatas à disciplina espartana, ao trabalho de ocupar um lugar principesco.

Sabemos que para parecer bela é preciso ser muito meticulosa, assim a beleza contemporâneamente diz menos de um dom, mais de um esforço. É desta forma que as modelos dão forma não só a um corpo, mas à nova relação da mulher com o trabalho. Neste caso, o trabalho necessário para ser objeto de amor, no sentido vasto da admiração.

Mas retomemos uma questão levantada acima sob esta nova perspectiva:é a mesma coisa brincar de ser uma modelo, fantasiar ser uma, ou parecer-se com uma?

Ser levada pela mamãe para fazer um “book” num fotógrafo, para fazer fila numa seleção de modelo de comercial, ou de bailarina mirim de rebolado, ir aos aniversários das amiguinhas de tamanco de salto alto e short mínimo (horríveis para correr e brincar), participar nesta mesma festinha de um concurso de danças que dramatizam o coito e a sedução sexual, é o mesmo que brincar e fantasiar?

Helene Deutsch fez, na década de 30, uma delicada descrição da gênese de uma mulher (2). Para tanto, realizou uma linha temporal, que, embora relativa, vem a ser útil pelo seu caráter de uma descrição clinicamente muito inteligente. Prévio à adolescência, identificou processos que denominou como pré-puberdade, primeira puberdade e puberdade. A transformação que vai se processando é justamente a da forma diferente como a menina vai lidando com a expectativa da mulher que irá se tornar e o consequente desgarramento do espaço doméstico.

A identificação é o recurso princeps, na visão de Deutsch, para o afastamento da mãe. Para tanto, a figura amada parental é substituida por outro objeto de admiração, quer seja uma “melhor” amiga (o mais comum ), uma mestra, uma atriz , cantora ou outro personagem qualquer. Na mesma medida em que a outra é amada, a figura materna passa por uma depreciação, fruto do desencanto necessário à separação e individuação da menina.

Assim como foi preciso perder o seio para ter acesso à figura da mãe como um todo, a menina precisa perder a mãe supridora da infância para conhecer a mulher que ela é. Ganha acesso com esta operação à distância, à exterioridade necessária à observação, pois somos incapazes de enxergar aquilo que está colado em nosso nariz. Vista assim de fora, a imagem da mãe tem tudo a perder e a identidade da menina tudo a ganhar. Agora pode discernir traços, características, do que quer ou não, do que poderá, deverá, adorará ou odiará carregar pela vida afora. Dará oportunidade ao “quero ou não quer ser como ela”

Interessa-nos em particular a descrição que a autora faz da pré-puberdade, por ser o primeiro lance que sucede à infância. O recurso do brincar de que a criança dispõe, oferece uma saída extremamente eficiente para lidar com o ideal (aquilo que o sujeito acha que deve ser para ser amado): o espaço lúdico permite com que o sujeito possa brincar de ser algo sem que seja necessário arcar com as consequências da fantasia em jogo. A puberdade, quando instalada, oferece outro espaço para equacionar o que se deveria ser e não se é: o espaço da fantasia.

 Entre o brincar e o fantasiar há um processo que Deutsch identifica como pré-pubertário, onde o sujeito dedica-se a “desempenhar um papel”. Trata-se de uma representação, mas que tem um caráter concreto, real, completamente diferente do brincar e do fantasiar. É uma “atuação”,para Deutsch, no sentido teatral do termo, que passa por alguma forma da primitiva incorporação, fazendo, como explica a autora “de sua própria pessoa um objeto de identificação”. Ela assim o descreve:”Um desejo interno força a moça na pré-puberdade a atuar. Deve se dirigir à realidade e fácilmente pode se observar neste período a  tendência a considerar todas as coisas mais realisticamente. Frases, símbolos, etc. estão dotados de um valor de completa realidade e isto, combinado com a tendência a experimentar diretamente as coisas, dá lugar a que seus atos sejam extraordinariamente estranhos”.

Deutsch descreve episódios onde a menina é tomada de assalto quando se percebe em plena dramatização de suas fantasias, reagindo com aparentemente despropositados acessos de inibição, agressividade, ou mediante episódios de ascetismo ou agorafobia. É como se, por um período, houvesse uma diminuição na capacidade de metaforizar, de fazer a diferença entre dentro e fora, seja do eu, da imaginação ou do espaço entre eu e o outro.

O melhor uso que as meninas fazem disso, são as amizades simbióticas, plenas de segredos e cumplicidades, que pululam nesta época, onde uma cumpre esta função de alter-ego encarnado da outra.

A pré-puberdade é acompanhada de um caráter “ofensivo”, pois ela desempenha este papel de tentar ser o que gostaria dentro de casa, tornando convincente por atos aquilo que ela não tem elaboração para ser. Higiene, alimentação, limites, são um problema, para esta menina constantemente acordada de seu transe pelo lugar de criança que ainda ocupa no meio familiar.

Se utilizarmos como metáfora esta descrição da pré-puberdade, tão importante de ser vivida quanto empobrecida em capacidade de elaboração, poderemos reconsiderar as pequenas bailarinas de rebolado como aquelas a quem a sociedade situa neste lugar do “desempenhar”.

De fato, a separação, seja entre o bebê e seu seio, quanto entre o pós-latente e seus pais, pressupõe a construção de uma representação que separa o sujeito de seu agora objeto de amor. Desejar o seio pressupõe não sê-lo. Mas este lance segundo, tem como premissa de que tenha havido uma incorporação inicial, que neste caso da saída da latência, passa por desempenhar o papel, em que a menina julga ser, aos olhos dos adultos em sua volta, o ideal. Diferente de Cindy Crawford, a pequena modelo pré-puber, acredita ter que ser o que parece.

Mas o fato da modelo ser mais uma abnegada do que uma iluminada, retoma essa dimensão de incompletude que faz com que um ideal seja motor de um desejo. É preciso perder para poder seguir adiante, são as perdas dessa condição de ser o objeto, as perdas amorosas que mobilizam o desejo, por isso a mocinha a que me referi antes precisa de seus silicones.

Assim, poderíamos pensar que talvez nossa sociedade, para seu próprio uso, tenha dilatado essa condição do “desempenhar” e encontre limitações para o trabalho de elaboração que encontramos no brincar e no fantasiar.Já que não dispomos de maiores transcendências, sejam da ordem da religião ou da utopia, esperamos das realizações de uma vida individual e particular o motivo de uma existência, há que ser algo nesta vidinha porque do futuro da humanidade e da alma ninguém sabe….

Se alguém é pelo que é capaz de fazer e possuir, estamos fadados a uma certa mostração, habitamos um território de obviedades. Acreditamos que as aparências não enganam, o corpo é considerado um bom espelho da alma. Aliás, quem se preocupa com a alma?

Para nossa particular questão, precisariamos perguntar-nos o porquê da relevância do corpo na construção do ideal feminino. Não julgo que os meninos passem totalmente ao largo disso: meninos “sarados” fazem par com meninas “perfeitinhas”, para usar uma gíria da virada do século e ambos se denominam mutuamente como “deuses”, se e sómente na medida em que seus corpos façam juz à denominação. Porém se este mandato de ser belo afeta a ambos os sexos, é observável que para as mulheres é prerrogativa incontornável.

Lipovetsky (3)chamou de “triunfo do belo sexo” esta identificação da beleza com o feminino, que sabemos não ser antigo na tradição humana, pois data dos séculos XV e XVI, e acompanha o movimento de libertação e fragmentação de nossa visão de mundo.

A novidade com que contamos aqui seria a de uma nova ordem em construção, onde a mulher passa a ser também protagonista de uma história, deixando de cumprir um papel prescrito, ritual. A construção do ideal que dá contornos ao modelo feminino é um momento posterior à execução de um papel prescrito e formatado por uma sociedade de lugares rígidos. Observamos então que na abertura de caminhos para o destino da mulher, encontramos o corpo como encruzilhada, dele se esperam exitos ou desditas.

Neste corpo a saúde e a beleza traduzem um ser humano aprimorado, capaz de fazer o melhor de sí e de sua vida. Afinal de contas, seja da religião ou da ciência, só queremos uma coisa: proteção contra a morte. Um corpo sarado e perfeito é o de alguém que guarda distância da morte. Seguindo a mesma linha de raciocínio, podemos dizer que a menina que cedo se parece com uma mulher, seguramente tornar-se-á uma. Mais imortais quanto mais saudáveis, também acreditamos ser mais homens ou mulheres quanto mais soubermos parecer tais.

Menos endividada com velho mundo, que não lhe deu grande espaço a mulher é o mais contemporâneo das duas metades dos seres humanos, ela é a melhor tradução do quanto esperamos de um corpo trabalhado, aprimorado, modelar.

Da poesia vem os poréns, aquilo que dizemos antes de saber, por isso vale escutar um poeta que sempre se atribuiu o direito de emitir opiniões sobre o que deve ser uma mulher”. Eis que o grande apreciador, em todos os sentidos, dos encantos femininos, emitiu mais de uma receita de mulher, aqui vai uma:”Uma mulher tem que ter alguma coisa além da beleza…uma mulher tem que ter um molejo de amor machucado, uma tristeza que vem da beleza de se saber mulher”  Vem bem a calhar para lembrar outro atributo feminino tão exaltado hoje: o amor.

Não podemos esquecer que a menina fantasiada de mulher traz em seu corpo pendurados alguns objetos-fetiche que representam a sedução sexual. Pois bem, se o corpo é hoje um bom espelho da alma, o sexo é um bom espelho da capacidade de amar e ser amado. Se a beleza atrai olhares, a sensualidade garante o caráter desejante destes. Por isso vestimos as meninas de mulheres sensuais, queremos que sejam amadas. Como a pré-puber, acreditamos que parecer é ser…

Mas, porém, todavia contudo, ser mulher é ter aprendido a desconfiar dos tantos lugares, que ela sempre ocupou ou perdeu conforme a trama de suas histórias de amor, é saber que o desejo é volúvel, o amor é frágil e perecível. Parir, ver a vida gerar-se nas entranhas faz saber da vida, mas também da morte. Uma mulher sabe do acaso da existência a cada menstruação, a cada aborto.

 Seria injusto pensar que o que as mulheres tem a trazer a seu tempo, agora que tem direito a escrever o roteiro também, seria algo que se limitasse à sua beleza. Esperamos,como Vinícius, que ela saiba da beleza de sua sabedoria, pois saber da fragilidade do amor faz também parte de seus dons. Por isso as modelos sabem que não são o que parecem. A tendência é que assim como para a menina o “desempenhar” é apenas uma fase, ensanduichada entre o brincar e o fantasiar, para a mulher como um todo, a exaltação de seu corpo e de seus fetiches seja apenas uma nuance entre a dor e a beleza de se saber mulher.

(1) Freud, Sigmund, Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, in Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol.VII. Rio de Janeiro: Imago, 1989

(2) Deutsch, Helene, Psicologia de la mujer, Parte I. Buenos Aires: Editorial Losada, 1952.

(3) Lipovetsky, Gilles, La Tercera Mujer. Barcelona: Anagrama, 1997.

 Publicado no livro Novos Sintomas, org. Ana Marta Meira. Ed. Ágalma
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