O homem que sempre estava lá

Sobre o livro Tempos Interessantes, de Hobsbawn

Depois da virada do ano o balanço está feito, cada um já terá se confrontado com as realizações e pendências de mais um período vivido e estará tentando viver de acordo com as promessas que fez no ano novo. Como sempre,  podemos dependurar as frustrações pelas metas não cumpridas no cabide do tempo e lugar que nos foi dado viver, afinal, se não fosse esta época de crise, se não vivêssemos no Brasil, tudo teria sido diferente… Boa leitura para equacionar este drama é Tempos Interessantes, recém lançada autobiografia do historiador britânico Eric Hobsbawm (Companhia das Letras). Hobsbawm nasceu no ano da Revolução Russa, teve sua infância como órfão criado pelos tios numa Viena falida, adolesceu na Berlim pré-Hitlerista, ali se tornou comunista, viveu a segunda guerra como (obscuro) soldado inglês, testemunhou a bancarrota da utopia marxista que amava e, sendo judeu, criticou o sionismo. Já adulto, pôde acompanhar a relevância da revolução cultural iniciada nos anos 60, as conseqüências políticas do surgimento do terceiro mundo na cena mundial e aprender com a experiência multi-cultural de viver e ensinar na Europa e nos Estados Unidos. Ele estava no coração de muitos fatos, mas não foi relevante nem heróico, não foi poderoso nem vitimado, acima de tudo sempre estava lá, tentando ser coerente com seu pensamento e participar de alguma forma. Sofreu em várias ocasiões, porque viveu tempos e lugares trágicos, mas sua lição é de história.

Um dia descobriu que a maturidade o levara a contar o tempo em décadas e não mais em dias ou meses, estava então na época da elaboração, de afirmar que “A história necessita de distanciamento das paixões, mas também das tentações ainda mais perigosas da identidade”. Esta é questão importante para rever o balanço do ano que fizemos, pois carece que possamos tentar alguma distância de objetivos que pareciam óbvios e pertencimento a grupos que pareciam implícitos. É inevitável viver o tempo e o lugar que conseguimos negociar com o destino, mas a cada round da vida podemos e devemos colocar em questão identidades e paixões. Não se trata de ceticismo, de abrir mão de ser e amar, mas de poder estar abertos às modificações. Da vida que nos foi dada viver, podemos retirar a mesma lição que este incomparável historiador: a da mutabilidade. É útil desinflar nossa história pessoal da imensidão de seus dramas, ao lembrar que só o que podemos fazer é viver e pensar o lugar e a época que nos aconteceram e mesmo que não sejamos heróicos, se soubermos que somos sujeitos da história e nos comportarmos como tal, quiçá nossa vida valha a pena, se a alma não for pequena…

08/01/03 |
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